O Sistema

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04 Fevereiro – 30 Abril 2022

O Sistema
Cristiano Mangovo
Curadoria de Katherine Sirois

Nesta exposição individual intitulada “O Sistema”, Cristiano Mangovo (Angola, 1982)  apresenta seis quadros de grande formato, que abordam o tema crucial do Poder. Reconhecido pelo seu espírito crítico, pela sua defesa de uma justiça social e de uma consciência ambiental, Mangovo trata aqui da questão do exercício do poder, da sua conquista e preservação a todo o custo.

Dando eco a uma expressão popular em Angola, o título da exposição imprime um ligeiro toque de filosofia política às obras do artista. Frequentemente utilizada para descrever algo que  é disfuncional, fraudulento ou injusto,a expressão enfatiza a  questão primordial que assombra esta série de obras, ou seja, a da  natureza elusiva e intangível do próprio “sistema”. Sem pretender  abordar a sua natureza profunda, cujo magnetismo e dinâmica são capazes de corroer até o espírito mais elevado, este conjunto de obras visa estimular uma reflexão sobre o imperialismo, os conflitos de interesse, as rivalidades e os jogos de poder até mesmo entre os indivíduos, tribos, regiões, países, géneros ou entre Estados e as suas populações.

Sendo inéditas e tendo uma dimensão provocadora, as peças assumem o aspeto de tabuleiros de xadrez num fundo liso e monocromático. Apresentam o motivo de cadeiras rodeadas por múltiplas cabeças sem corpo. Representadas numa posição central e dominante, lembrando uma espécie de modelo Luís XV ou tronos africanos, as cadeiras aparecem como um símbolo de autoridade e de domínio. O seu aspeto antropomórfico e zoomórfico dá-lhes um toque vivaz. Estando vazias e olhando do alto as cabeças que se encontram abaixo delas, evocam uma e contínua governação acompanhada de privilégios, distante, imunidades, honras e feudos. Independentemente de quem se senta, como, quando e por quanto tempo, “o sistema” permanece o mesmo, intocável e incontestado.

A posição elevada dos assentos confere uma excelente visibilidade sobre o “campo” social, ao passo que o nível térreo oferece uma visão muito limitada. A característica dos rostos com duas bocas, recorrente na obra do artista, evoca a auto-censura e uma linguagem enganadora. Enquanto repousam no chão, no seu respetivo quadrado, e independentemente das suas marcantes expressões e caretas, é difícil não imaginar estas cabeças como tendo sido decapitadas. As três pinturas com fundo ocre remetem para um cenário político com dominação masculina, de estilo frio e tendencialmente violento.

As demais, paramentadas de azul,  apontam para práticas, forças e poderes tradicionais das mulheres, como também para o seu empoderamento no que respeita ao empenho social, económico e político. Apesar de as ideias de igualdade de género e de envolvimento das mulheres na vida pública de uma nação se colocarem no Ocidente como objetivos a ser alcançados, são maioritariamente inexistentes.

Se Mangovo assinala esta desalentadora realidade em países africanos, continua, no entanto, a ponderar as possibilidades de um poder político suscetível de ser exercido no feminino. Admitindo que as mulheres promoveriam uma mudança positiva, será que conseguiriam transformar o próprio sistema, de modo que fosse realizada uma forma de governação benevolente e no entanto eficaz? As interrogações de Mangovo revelam o quanto ele se debate com a crença na perfetibilidade das realidades humanas através da educação racional, ética, artística e espiritual. 

O artista parece ter consciência de que as aspirações são geralmente acompanhadas por desilusões e desencantos, de que após a hipotética reforma ou desmembramento do sistema permanece o próprio “sistema”, ad infinitum. Giuseppe di Lampedusa resumiu-o esplendidamente com o lema: “Tudo deve mudar para que nada mude”. Mas como seria se as pessoas dessem um passo para atravessar o espelho em que se reflete o mote que elas próprias perpetuam, tomando consciência do seu verdadeiro poder?

Um dos mais prolíficos entre os pintores da geração angolana do pós-guerra, Mangovo desenvolveu um estilo distinto, exuberante e maduro. Sendo ele impulsionado por um aguçado sentido de  observação e por um espírito satírico, a sua assinatura artística caracteriza-se por fortes ritmos visuais, cores e contrastes ousados, formas orgânicas desinibidas e imagens distorcidas do corpo.  O entrançar da abstração, da precisão dos gestos e dos pormenores com uma crueza e emocional gera um refrescante Expressionismo Figurativo.

Ao mesmo tempo que faz uso de uma gama polifónica características “Humanas, Demasiado Humanas”, o artista joga em vários registos, do espectral ao efusivo, do cómico ao trágico, do sobrenatural ao trivial, do hierático ao grotesco ou ainda do sagrado ao profano. Comprometido perante assuntos como a injustiça, a desigualdade, a pobreza e o ecocídio, e exercendo a arte das tipologias e arquétipos, a sua abordagem vai para além das especificidades locais para alcançar uma dimensão universal.

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vista de exposição
artista

Cristiano Mangovo (Angola, 1982)

Sendo Cristiano Mangovo natural de Cabinda, a sua visão, imaginação e referências estão enraizadas na rica e complexa paisagem sociocultural multi-camadas desta região. As suas capacidades artísticas e o seu interesse inicial em desenhar levaram-no a estudar pintura na Academia de Belas Artes de Kinshasa. Um dos mais prolíficos entre os pintores da geração angolana pós-guerra, Mangovo desenvolveu um estilo único, profundo, exuberante e maduro, que poderia ser definido como Expressionismo Figurativo.

A sua obra insere-se em várias coleções de arte como a AFRICANA Art Foundation, Centro Cultural Brasil, Dâr-al-Makhzen, Fondation Gandur pour l’Art, Fundo das Nações Unidas para a População, Lycée Français A.E.F.L. e Museu da Presidência da República Portuguesa. Em 2021 participou no Black Rock Senegal Artists-in-Residence, recebeu o Prémio Lusofonia e este ano os seus trabalhos serão apresentados nas Vinístas Kinshasa e Dakar Biennales.

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